Como acabar com essa guerra urbana
Caio Guatelli/Folha Imagem
Cerca de 700 motoboys realizam manifestação em frente à prefeitura, no dia 18: sempre em grupo
Há uma guerra em marcha nas ruas e avenidas de São Paulo. De um lado, prefeitura e governo federal. De outro, milhares de motoboys insatisfeitos com medidas que tentam colocar alguma ordem em seu frenético vaivém. No último dia 18, pelo menos 700 motociclistas atravancaram ainda mais o trânsito em diversas regiões para protestar contra o aumento do seguro obrigatório (de 183,84 para 254,16 reais), a proibição de circular pelas vias expressas das marginais e a obrigatoriedade de utilizar apenas veículos com menos de nove anos de fabricação, entre outras determinações. Os motoboys, sempre em grupo, prometem fazer mais barulho e, para defender os interesses de uma minoria, atrapalhar todos os paulistanos. O poder público garante que vai endurecer a fiscalização. No início do ano entraram em vigor novas regras do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), como normas para o uso de baús e a necessidade de faixas refletivas nas laterais e na traseira dos capacetes, que devem ser certificados pelo Inmetro. Também será obrigatório que o motoboy trabalhe com um veículo registrado em seu nome.
Muitas das medidas visam à segurança dos próprios motociclistas. Todos os dias, 25 acidentes com motos ocorrem nas ruas paulistanas, com o saldo de um morto. "As motos são apenas 9% da frota, mas representam 25% dos acidentes com vítimas fatais", afirma o secretário municipal dos Transportes, Alexandre de Moraes. O grande número de acidentes é explicável. Na ânsia de realizar suas tarefas o mais rápido possível, o motoboy coloca a sua vida e a de outros em risco. Afinal, a maioria ganha por produção. Para driblarem o trânsito, cometem toda sorte de infrações. Cruzam faróis vermelhos, passam por calçadas, andam na contramão... "Minha mãe e minha mulher pedem todo dia para eu sair dessa profissão", conta José Mariano Lucas Junior, motoboy há cinco anos. "Mas não tem jeito. Ser motoboy vicia." Eles recebem por volta de 5 reais a hora, apesar de as empresas chegarem a cobrar do cliente 18 reais pelo mesmo período. Se a compra de algum equipamento de segurança significa gasto extra, eles deixam para lá. Um capacete certificado pelo Inmetro, por exemplo, custa a partir de 70 reais. Para economizar, há quem prefira modelos importados da China, que saem por até metade desse valor – e não dão a mesma proteção. "A moto é instável e, quando cai, o motociclista não tem controle sobre o corpo", diz a médica fisiatra Júlia Maria D’Andréa Greve, do Hospital das Clínicas. "Um capacete fajuto não absorve o trauma, mesmo em velocidades baixas." Além do óbvio prejuízo ao trânsito – um motociclista acidentado fecha, por vários minutos, ao menos uma faixa de rolamento –, esse é também um problema de saúde pública. Segundo dados da Secretaria dos Transportes, um acidentado grave atendido em um hospital estadual custa ao governo cerca de 200.000 reais.
Vagner Campos/Fotoreporter/AE
Acidente na Radial Leste: imprudência e má conservação das motos são as principais causas
Numa metrópole com tráfego caótico como São Paulo, os motoboys tornaram-se uma espécie de mal necessário. "Mesmo quem não gosta da gente acaba usando nossos serviços", diz Aldemir Martins de Freitas, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Motociclistas da Cidade de São Paulo (Sindimoto). "Seja para receber uma pizza quentinha, um remédio urgente ou um documento importante." Veja São Paulo testou a eficácia de seus serviços. Na última quarta (23), enviou três envelopes (de moto, de carro e de ônibus) da Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, na Zona Sul, para a região central. A idéia era ver qual portador chegava primeiro. O motoboy ganhou disparado (confira quadro na pág. 34).
Agliberto Lima/AE
Cena comum: motoboy se desequilibra e cai sozinho na Avenida Doutor Arnaldo
A prefeitura vem realizando testes para delimitar os espaços de carros e motos. Na semana passada, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) resolveu experimentar uma faixa exclusiva na Avenida 23 de Maio, a exemplo da que existe na Avenida Sumaré. Deu tudo errado. Enquanto os motoboys passavam ligeiros, os motoristas ficaram parados em congestionamentos atípicos para o mês de janeiro. O prefeito Gilberto Kassab anunciou na quarta que a medida não foi aprovada. A partir do dia 11, não poderão mais trafegar na via expressa das marginais Pinheiros e Tietê. Segundo a companhia, na via expressa são registrados duas vezes mais acidentes que na via local. "É um absurdo", afirma Gilberto Almeida dos Santos, presidente do Sindicato dos Mensageiros Motociclistas do Estado de São Paulo (Sindimotosp). "A via local, por causa do entra-e-sai de carros, é mais perigosa. Sem falar que o trânsito ali é mais demorado." O presidente da CET, Roberto Scaringella, rebate: "É claro que na via expressa da marginal o motoboy chega mais rápido. Às vezes, ao céu".
Essa briga entre motoboys e poder público deve esquentar ainda mais. O vereador Jooji Hato (PMDB) promete colocar em votação, no início de fevereiro, uma proposta para derrubar o veto da ex-prefeita Marta Suplicy a seu projeto de lei que proíbe a carona em motocicletas de segunda a sexta-feira. "É uma forma de evitar crimes", diz Hato, que é motociclista há quarenta anos e atualmente pilota uma Honda CB Hornet 600 cilindradas. "Grande parte dos motoqueiros que trafegam em dupla tem a intenção de assaltar." Ele lembra que já foi vítima de motociclistas com comparsas na garupa por duas vezes. De acordo com um levantamento feito em 2007 pelo Departamento de Polícia Judiciária da Capital (Decap), 61,5% dos 15 000 casos de crimes contra o patrimônio cometidos nas zonas oeste, central e em parte da sul tiveram a participação de motociclistas. Em três blitze realizadas em novembro e dezembro, o 34º Batalhão de Trânsito da Polícia Militar vistoriou 8 633 motos. Noventa delas foram apreendidas e sessenta ocupantes presos em flagrante. "Em raríssimos casos a legislação permite a apreensão de veículos em mau estado", afirma o major Ricardo Fernandes de Barros, comandante do 34º Batalhão. "Depois da imprudência, a conservação inadequada é a causa do maior número de acidentes."
A vida sobre duas rodas
150 000 motoboys circulam em São Paulo, segundo um dos sindicatos da categoria. Para a Secretaria de Transportes, seriam 250 000
2 000 empresas de motofrete atuam na cidade
1 000 reais brutos por mês é quanto ganha em média um motoboy que trabalha dez horas por dia
200 000 reais é quanto custa aos cofres públicos um acidentado grave atendido em hospital estadual, segundo a Secretaria de Transportes
61,5% dos crimes contra o patrimônio são cometidos por bandidos de moto
O que eles não querem
Aumento do seguro obrigatório de 183,84 para 254,16 reais
Proibição de trafegar nas vias expressas das marginais
Obrigatoriedade de utilizar apenas veículos com menos de nove anos de fabricação
Proibição de uso de motos em nome de terceiros para trabalhar
Faixas refletivas nas laterais e na traseira dos capacetes, que devem ser certificados pelo Inmetro