O que se pode fazer para ajudar a diminuir os congestionamentos que torturam os paulistanos
Mario Rodrigues
Congestionamento na Avenida 23 de Maio, na última terça (27): inferno cotidiano dos motoristas
1. Pequenas medidas, grandes impactos
• Tapar buracos. Além de causarem acidentes e provocarem avarias nos veículos, os buracos diminuem a velocidade dos carros, que são obrigados a desviar deles. Consertar vias estratégicas pode fazer toda a diferença. O recapeamento dos 61 quilômetros das marginais e arredores – concluído há quinze dias –, por exemplo, aumentou a velocidade dos veículos em 30%, na média.
• Pintar faixas nas ruas. Se o motorista vê as faixas no chão, dirige com mais segurança. "As marcas organizam o tráfego e aumentam o fluxo", diz o engenheiro Jaime Waisman, doutor em trânsito e transporte pela Universidade de São Paulo.
• Acrescentar faixas em avenidas movimentadas. O princípio é encolher as faixas já existentes para dar lugar a mais uma. Foi o que se fez na Avenida 23 de Maio, que passou de quatro para cinco faixas. Segundo a CET, a obra consumiu 100.000 reais e o fluxo de veículos aumentou 15%. Essa mudança poderia ser adotada em outras vias da cidade, como a Rubem Berta e a Radial Leste.
• Regulamentar as guias rebaixadas em grandes avenidas. Dos 350 imóveis da atravancada Avenida Rebouças, 90% têm guias rebaixadas irregulares – a lei manda que o rebaixamento ocupe no máximo 50% da fachada. Caso a regra fosse cumprida, a área de estacionamento diminuiria. Cada carro que vai parar em frente aos estabelecimentos comerciais gera uma fila de lentidão atrás dele. "Se houvesse fiscalização, o trânsito da região melhoraria 50%", calcula o engenheiro de transportes Luiz Célio Bottura.
• Construir áreas de embarque e desembarque dentro de escolas. Fila dupla em porta de escola é uma cena clássica. Colégios como o Marista Arquidiocesano, na Vila Mariana, e o São Luís, em Cerqueira César, construíram áreas especiais de embarque e desembarque de alunos dentro de seus terrenos. A CET ajudou a elaborar o projeto. É uma iniciativa que deveria servir de exemplo.
2. Um rodízio eficiente
3. Triplicar o contingente de marronzinhos
Leo Feltran
Marronzinho no cruzamento das avenidas Brasil e Rebouças: é a sua presença que inibe infrações
4. Mais metrô, mais trens e melhores ônibus
Antonio Gauderio/Folha Imagem
Estação Sé do metrô, lotada: aos atuais 60,2 quilômetros de trilhos teriam de ser acrescidos mais 110 até 2020
Ao mesmo tempo, é preciso modernizar, ampliar e integrar os sistemas de trens e ônibus existentes. Até 2010, os atuais 270 quilômetros de trilhos da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) devem chegar a 315 e a rede vai passar a transportar 2,5 milhões de pessoas por dia (contra 1,5 milhão hoje). Garagens no entorno das estações estimulariam o paulistano a deixar o carro lá e a fazer a maior parte de seu percurso de trem. Corredores de ônibus também são necessários, mas não basta ampliar os atuais 146 quilômetros de faixas exclusivas para 232 quilômetros até 2016, como pretende a Secretaria Municipal de Transportes, sem agilizar a operação das já existentes. A velocidade média dos ônibus nesses corredores é de 17 quilômetros por hora. Se os trajetos fossem racionalizados e os veículos particulares que trafegam nos corredores fossem sempre multados, a velocidade aumentaria 30%.
A cobrança de passagens do lado de fora dos ônibus, como em Curitiba, ajudaria a economizar tempo no embarque. Outra saída seria espalhar 3.000 microônibus pelo centro expandido. Menores e mais confortáveis, os microônibus seriam distribuídos de maneira que o usuário caminhasse no máximo 300 metros para alcançar o ponto de ônibus mais próximo, onde não poderia esperar mais que cinco minutos. "Se funcionasse dessa maneira, o sistema tiraria 30% dos carros das ruas e a sensação seria a mesma de circular por São Paulo nos feriados", estima o urbanista Cândido Malta Campos Filho, defensor da idéia.
5. Multar mais para que todas as leis de trânsito sejam respeitadas
Mario Rodrigues
Fila dupla em frente ao Colégio Rio Branco, em Higienópolis: as escolas devem ter área de embarque e desembarque
Mas de nada adianta intensificar a fiscalização se o dinheiro arrecadado não for investido no controle do tráfego (o Código Brasileiro de Trânsito determina que 95% do valor das multas tenha esse destino). Desde que os radares que fiscalizam abusos de velocidade e avanços em semáforos chegaram à cidade, há dez anos, a prefeitura arrecadou 3,2 bilhões de reais, dos quais 2,7 bilhões ficaram com a companhia.
6. Campanhas de educação
Epitácio Pessoa/AE
Crianças em aula sobre trânsito: investimento barato e duradouro
7. Pedágio nas regiões centrais
Alexandre Schneider
Operação tapa-buracos: a medida reduz acidentes e melhora a fluidez
8. Tirar da rua os carros em más condições
Alex Silva/AE
Velharia em blitz da Polícia Militar: colocando vidas em risco
9. Controle de tráfego automatizado
Silvio Gioia
Câmera: atrás de quem fura o rodízio
"Se os 1.500 quilômetros de ruas por onde circulam 70% dos veículos fossem monitorados, o alívio já seria grande", diz o engenheiro de tráfego Chequer Jabour Chequer, especialista em ITS, sigla em inglês para sistema de transporte inteligente. E isso não significa apenas consertar os 1.040 dos 1.300 semáforos inteligentes que estão quebrados. Com a ajuda de sensores, tais equipamentos calculam o tempo de abertura e fechamento de acordo com as condições das ruas e avenidas. Para começar a derrubar as médias de congestionamento, calcula-se que seriam necessários outros 1.300 semáforos high-tech.
Mas pouco adianta ter sinais com QI se um carro quebrado bloqueia a rua e a central da CET não consegue detectá-lo. É aí que entram as câmeras de TV, que flagram obstáculos e infrações e ajudam a CET a atender mais rapidamente acidentes, carros quebrados e veículos estacionados irregularmente. Hoje, só 45 das 151 câmeras espalhadas pela cidade funcionam. É preciso, pelo menos, que todas voltem à ativa. A instalação de outras 350 garantiria que as principais ruas da cidade fossem vigiadas. Motoristas poderiam ser alertados sobre as condições do tráfego por meio de painéis com mensagens variáveis. Semáforos, câmeras e painéis custariam à prefeitura cerca de 200 milhões de reais.
Uma nova lei deve reforçar o monitoramento. Sancionado pelo Contran em novembro do ano passado, o Sistema Nacional de Identificação Automática de Veículos (Siniav) obriga toda a frota brasileira a ser equipada com chips eletrônicos de controle. As utilidades da tecnologia vão além da identificação de carros roubados. Como o sensor informa a velocidade, a CET poderá, por exemplo, identificar os carros que invadem corredores de ônibus, burlam o rodízio e rodam irregularmente. "Seria uma revolução no controle de tráfego", diz Scaringella. "É por isso que queremos nos tornar a primeira cidade brasileira a implantar o sistema." A idéia é bancar os chips com a arrecadação de multas. Segundo cálculos do Denatran, eles devem custar em média 20 reais por veículo. Para equipar toda a frota, a cidade gastaria em torno de 112 milhões de reais.
Christian Castanho
Central da CET: monitoramento das ruas 24 horas
10. Disciplinar a circulação dos caminhões
Patricia Santos/AE
Caminhão tombado na Marginal Tietê, em janeiro: a cada três horas um deles quebra
• Terminar o trecho sul do Rodoanel
Antonio Milena
Rodoanel: trecho oeste diminuiu em 20% o trânsito de carga nas marginais
• Construir centros de distribuição na periferia
Com o Rodoanel pronto, a idéia é que a iniciativa privada construa centros de distribuição em seu entorno, como acontece em cidades européias, entre elas Londres, Lisboa e Roma. Carretas vindas dos portos ou do interior desembarcariam a carga nessas plataformas. A mercadoria entraria na cidade em veículos menores, que não atrapalham tanto o trânsito. "Para algumas empresas, o custo da construção desses centros seria compensado pela economia de tempo e dinheiro nas entregas", diz o consultor em logística Antonio Carlos Rezende.
• Proibir a carga e descarga durante o dia em grandes estabelecimentos
Desde abril de 2005 vigora na cidade um decreto que proíbe a operação de carga e descarga em 2 345 shoppings, supermercados e estabelecimentos de grande porte das 6 às 22 horas, em toda a cidade. O objetivo é aproveitar a madrugada para fazer entregas. Mas a lei é ineficaz: só atinge 3% da frota e permite que os comerciantes recebam mercadorias durante o dia se forem entregues por pequenos caminhões de até 5,5 metros de extensão. "Isso acabou desestimulando a entrega noturna", diz Fernando Abrahão Zerati, assessor técnico do Setcesp. Até o fim de fevereiro, apenas uma empresa tinha sido multada por descumprir a lei. A solução é mudar a legislação para proibir que os grandes estabelecimentos recebam mercadorias durante o dia, com qualquer tipo de veículo.
• Criar faixas exclusivas na Avenida dos Bandeirantes
A implantação de um corredor para os 28.000 caminhões que passam por ali – boa parte rumo ao litoral – poderia reduzir de 12 para 6 quilômetros a lentidão média diária. Seriam usadas as duas faixas mais à esquerda de cada sentido. A velocidade média deve subir dos atuais 20 quilômetros por hora para 35 quilômetros por hora. Outro impacto da obra seria a economia anual de cerca de 70 milhões de reais com combustível. A nova Bandeirantes já está nos planos da prefeitura e o orçamento deste ano destina 30 milhões de reais para a obra (de um total de 200 milhões de reais necessários). Só falta tirar do papel.